
Foto: Divulgação/Ascom
O recente caso do cantor baiano Junior Luzz, conhecido pelo sucesso “De Levinho”, internado após sofrer um Acidente Vascular Cerebral (AVC) no último domingo (5), reacendeu o alerta para uma doença que segue entre as principais causas de morte e incapacidade no Brasil. O artista, que ganhou destaque no cenário musical baiano com hits populares, permanece hospitalizado sob cuidados médicos, com quadro considerado estável, segundo informações iniciais divulgadas por pessoas próximas.
Embora episódios envolvendo figuras públicas chamem atenção, especialistas destacam que o problema é amplo, silencioso e atinge milhares de pessoas todos os anos, muitas vezes sem aviso prévio.
Dados nacionais mostram a dimensão do impacto: o AVC provoca, em média, 235 mortes por dia no país, o equivalente a uma a cada seis minutos. Em 2025, mais de 85 mil brasileiros perderam a vida em decorrência da doença. Além disso, grande parte dos sobreviventes passa a conviver com sequelas que comprometem funções como fala, memória e mobilidade, o que gera impactos profundos na qualidade de vida e no sistema de saúde.
Na Bahia, o cenário segue a mesma tendência preocupante. Autoridades de saúde e especialistas apontam a necessidade de ampliar a conscientização, especialmente diante de um fenômeno recente: o aumento de casos entre pessoas jovens. Tradicionalmente associada à terceira idade, a doença vem mudando de perfil e exigindo novos olhares sobre prevenção e diagnóstico precoce.
O AVC é caracterizado por uma alteração no fluxo sanguíneo cerebral. Ele pode ocorrer de duas formas principais: o tipo isquêmico, quando há obstrução de um vaso, e o hemorrágico, quando ocorre o rompimento. Em ambos os casos, a consequência é a falta de oxigênio e nutrientes no cérebro, o que leva à morte de células cerebrais em questão de minutos.
A relação entre alimentação e o desenvolvimento da doença também é um ponto de alerta. Segundo a nutricionista Beatriz Nogueira, os hábitos alimentares ao longo da vida têm impacto direto no surgimento dos principais fatores de risco. “O AVC é uma condição grave em que há interrupção do fluxo de sangue para o cérebro, levando à morte desse tecido. E a alimentação está diretamente relacionada com essa complicação”, explica.
De acordo com a especialista, o consumo elevado de sódio está entre os principais vilões, por favorecer o desenvolvimento da hipertensão arterial. Esse aumento da pressão, ao longo do tempo, pode danificar os vasos sanguíneos e facilitar tanto o entupimento quanto o rompimento, mecanismos diretamente ligados aos tipos de AVC.
A nutricionista também destaca, em fala indireta, que dietas ricas em gorduras saturadas contribuem para o aumento do colesterol e a formação de placas de gordura nas artérias, conhecidas como ateromas, que podem se romper e provocar o acidente vascular. Já em citação mista, ela reforça que “o consumo de gordura e de sódio, além do álcool e do tabagismo, aumenta significativamente as chances de um AVC”, especialmente quando associado ao sedentarismo e ao excesso de peso.
A rapidez no atendimento é decisiva. De acordo com o neurologista Jamary Oliveira Filho, o AVC é uma doença “tempo-dependente”. Isso significa que cada minuto sem tratamento adequado resulta na perda de cerca de 2milhões de neurônios. “É literalmente uma corrida contra o tempo. Quanto mais cedo o paciente chega ao hospital, maiores são as chances de recuperação e menores os riscos de sequelas”, explica.
Em Salvador, hospitais com protocolos específicos para AVC já adotam fluxos de atendimento emergencial que envolvem desde a triagem rápida até a realização imediata de exames de imagem, como a tomografia. Em muitos casos, o tratamento é iniciado ainda na sala de diagnóstico, sem necessidade de retorno à emergência, justamente para ganhar tempo.
Referência no atendimento de alta complexidade na Bahia, o Hospital do Subúrbio, em Salvador, conquistou recentemente o selo Diamante por excelência no tratamento do Acidente Vascular Cerebral (AVC). A certificação reconhece unidades de saúde que seguem rigorosos protocolos internacionais, com agilidade no diagnóstico e início do tratamento, fatores decisivos para reduzir mortes e sequelas. A unidade se destaca por contar com equipes treinadas e fluxo assistencial bem estruturado, garantindo que pacientes com suspeita de AVC recebam atendimento prioritário desde a chegada à emergência.
Na unidade, o atendimento ao AVC é tratado como uma corrida contra o tempo, com processos que permitem diagnóstico rápido por imagem e início imediato das terapias indicadas. Esse modelo tem contribuído para aumentar as chances de recuperação dos pacientes e consolidar a unidade como uma das principais referências no cuidado ao AVC no estado.
Entre os tratamentos disponíveis estão medicamentos que ajudam a dissolver coágulos e técnicas avançadas, como a trombectomia mecânica, procedimento que remove o bloqueio diretamente do vaso sanguíneo por meio de cateteres. Hoje, a janela de tratamento pode chegar a até 24 horas em alguns casos, mas os especialistas reforçam: quanto antes, melhor.
Identificar os sinais também é fundamental. Os sintomas do AVC surgem de forma súbita e incluem fraqueza em um lado do corpo, dificuldade para falar e alteração no sorriso, como a boca torta. Uma estratégia amplamente utilizada é a sigla “SAMU”: S de sorriso, A de abraço (levantar os braços) e M de música (dificuldade na fala), com o U representando a urgência em buscar atendimento imediato.
Apesar da gravidade, até 90% dos casos de AVC podem ser evitados com medidas preventivas. Entre os principais fatores de risco estão hipertensão, diabetes, colesterol elevado, tabagismo, obesidade e sedentarismo. O problema é que muitos desses fatores são silenciosos, o que faz com que a doença surja sem sinais prévios aparentes.
O crescimento de casos entre jovens tem relação direta com mudanças no estilo de vida. O aumento do consumo de cigarro eletrônico, drogas, alimentação inadequada e o sedentarismo são apontados como fatores determinantes. Além disso, há um comportamento de menor busca por acompanhamento médico nessa faixa etária.
“Existe uma falsa sensação de invulnerabilidade entre os jovens. Muitos só descobrem problemas como hipertensão ou colesterol alto em estágios avançados, quando já há risco elevado”, alerta o neurologista. A falta de check-ups regulares contribui para diagnósticos tardios e agrava o cenário.
Outro ponto de atenção é o impacto social do AVC. Além das mortes, a doença é uma das principais causas de incapacidade no mundo. Pacientes que sobrevivem podem necessitar de reabilitação prolongada, apoio familiar e acompanhamento multidisciplinar, o que gera desafios também para a rede pública de saúde.
Diante desse cenário, especialistas reforçam que informação e prevenção são as principais ferramentas. Manter uma rotina de atividade física, alimentação equilibrada, controle de doenças crônicas e acompanhamento médico regular são medidas capazes de reduzir significativamente o risco.
Outro caso de grande repercussão foi o do cientista e youtuber Pirulla, conhecido por seu trabalho de divulgação científica na internet, que também enfrentou há 11 meses um AVC, ampliando o debate sobre a doença entre públicos jovens e conectados.
O caso repercutiu nas redes sociais e reforçou um alerta importante: o AVC não escolhe perfil e pode atingir indivíduos de diferentes idades e estilos de vida. A experiência do youtuber contribuiu para destacar a importância de reconhecer rapidamente os sintomas e buscar atendimento médico imediato, além de reforçar o papel da informação na prevenção e no diagnóstico precoce da doença. Pirulla segue em recuperação.
Fonte: Tribuna da Bahia

