Mutação de vírus da zika dificulta plano de vacina

Bahiafarma produz testes rápidos para zika, dengue e chikungunya - Foto: Ascom | Sesab

 

Estudo de um pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) aponta que o vírus da zika tem sofrido mutações em sua estrutura. Apesar de ainda não ser possível afirmar que um novo vírus surgiu, a produção devacinas contra a doença, com as modificações que estão em curso, poderá ser dificultada.

“Não posso afirmar que vai surgir um vírus novo, mas está se caminhando para isso”, afirma o professor Edison Luiz Durigon, à frente da pesquisa. O problema é que, se isso ocorrer, a procura por uma vacina para combater a doença ficará mais difícil, pois o remédio terá que combater todas as versões do vírus.

O pesquisador usa como exemplo a dengue, que possui quatro tipos diferentes e não possui vacina para combatê-la. Caso a mutação provoque o surgimento de um novo vírus da zika, ele diz ainda que uma versão pode não ser detectada pelos métodos de diagnóstico.

O trabalho de Durigon, apresentado no 28º Congresso Brasileiro de Virologia e 12º Encontro de Virologia do Mercosul, sequenciou a carga genética (RNA, correspondente ao DNA humano) do vírus, para a identificação da identidade viral.

Carga genética

Durigon ressalta, no entanto, que as modificações ocorridas ainda não podem ser consideradas cientificamente um novo tipo do micro-organismo. Para que se torne um novo vírus, é necessário ter pelo menos 10% de carga genética diferente da versão original, o que ainda não foi identificado.

Para chegar ao resultado, o professor, que é do Instituto de Ciências Biomédicas da USP e trabalhou com mais 20 pesquisadores de São Paulo, Bahia e Estados Unidos, acompanhou por um ano quatro pessoas infectadas: dois homens e duas mulheres, que foram observados desde a detecção da infecção até o expelimento total do zika. Foram analisadas amostras de sangue, saliva, urina e esperma, no caso dos homens.

O que foi verificado, explica Durigon, é que os homens, que expelem o vírus pelo esperma, demoraram até seis meses para ficar livres dele. Já as mulheres, nas quais o expelimento se dá por urina e saliva, o vírus sumiu em até um mês.

A pesquisa verificou ainda que, quanto mais tempo fica no corpo humano, mais o vírus sofre mutação. Assim, diz o coordenador do estudo, as mutações do zika em homens se dão “mais que o dobro de vezes” do que num corpo feminino.

Durigon não possui explicação para a diferença de tempo, mas acredita-se que o vírus se esconde nos testículos. Essa é a razão também da transmissão do zika por via sexual, quando o homem transmite um vírus com carga genética diferente do que infectou ele.

Novos genótipos

Diretor do Instituto Evandro Chagas (IEC), Pedro Vasconcelos diz que não acredita que aparecerão outros vírus da zika, como ocorre na dengue. “O que pode aparecer são novos genótipos que são o mesmo vírus, mas com pequenas modificações. É um vírus de RNA que durante o processo de replicação provoca mutações, mas não tem grande significado. É uma forma de tentar escapar do organismo”.

O IEC, órgão vinculado ao Ministério da Saúde com sede no Pará, desenvolve uma vacina para a zika.

O trabalho está na fase final de testes em macacos. A etapa seguinte é a solicitação de autorização para ser testada em humanas, o que será feito, segundo ele, pelo Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

 

Não posso afirmar que vai surgir um vírus novo, mas está se caminhando para isso.

Edison Durigon,pesquisador

 

Vasconcelos prevê que serão necessários mais três anos para que a vacina seja finalizada, mas não considera que as mutações impactem na eficácia dela.

O pesquisador Edison Durigon concorda. “Ele tem razão no que temos hoje. Mas, se o vírus mudar mais do que 10%, teremos um fenótipo novo, como aconteceu com a dengue”, destaca.

No entanto, ele não informou a porcentagem de mudança ocorrida no vírus que foi detectada na pesquisa.

O Instituto Butantan, em São Paulo, também desenvolve vacina contra a zika. “Durante este processo qualquer descoberta pode impactar nos planos. No entanto, ainda são necessários mais estudos que contribuam com o conhecimento a respeito das eventuais mutações para avaliar se haverá e qual pode ser o tipo de impacto nos programas que estão em atividade”, ressalta, em nota, o órgão.

Professor da USP Edison Durigon coordena a pesquisa (Foto: Divulgação)

 

Para o presidente da Sociedade Brasileira de Virologia, Maurício Nogueira, a pesquisa de Durigon serve como um alerta. “É um trabalho inicial, mas temos que continuar observando outras pessoas para verificar se esse fenômeno vai de fato ocorrer. É um alerta para o futuro. A gente pode fazer uma vacina para um vírus e ter outros diferentes”.

Além do acompanhamento, Nogueira ressalta que é necessário que o poder público controle a transmissão. “E o cidadão também tem que colaborar para não deixar que o mosquito prolifere”, acrescenta.

De acordo com o último boletim epidemiológico divulgado pela Secretaria da Saúde do Estado (Sesab), este ano, até 4 de agosto, notificaram-se 1.934 casos suspeitos de zika, 9.423 casos suspeitos de chikungunya e 8.284 casos prováveis de dengue na Bahia.

Prevenção

Doutor em obstetrícia e pesquisador da zika, o professor da Universidade Federal da Bahia (Ufba) Manoel Sarno defende que “a prevenção da transmissão é o melhor remédio” para evitar a proligeração da doença. Ele acredita que um novo vírus surja da mutação do zika e duvida da criação rápida de uma vacina para a enfermidade.

“Temos que combater o mosquito com todas as nossas armas e a proteção individual. Acredito que iremos demorar para ter uma vacina contra a zika. Veja o que aconteceu com a dengue”, afirma o especialista

Ele crê ainda que, se surgir, o novo zika trará “novos danos”. “Mas ainda não sabemos se isto realmente irá acontecer”, diz.

Uol A Tarde

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