Erros no Enem fragilizam Weintraub, mas apoio dos Bolsonaro o mantém no MEC

 

 

 

Em meio a seguidas polêmicas à frente do Ministério da Educação (MEC) e desgastado após uma sucessão de erros no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), Abraham Weintraub vê sua permanência no cargo cada vez mais questionada. O presidente Jair Bolsonaro, no entanto, foi convencido pelo ministro de que os problemas são decorrentes do “aparelhamento” na pasta, que teria ocorrido nos governos do PT. Weintraub tem dito a auxiliares mais próximos que, a despeito das especulações sobre sua saída, está cada vez mais forte.

A tese de complô, no entanto, não deve ser suficiente para garantir a permanência do ministro no cargo caso a relação do titular do MEC com o Congresso se esgarce a ponto de atrapalhar a pauta econômica. É exatamente da equipe liderada pelo ministro Paulo Guedes que vêm os clamores internos pela troca de Weintraub. Além de azedar as relações já nada amistosas com a Câmara, Weintraub divulga projetos com impacto na economia sem consultar Guedes. Foi o caso do prometido Future-se, principal programa do governo Bolsonaro para a educação superior pública e que mexe diretamente com o patrimônio das universidades.

Não há sequer um desenho do Future-se finalizado. A proposta passou por duas consultas públicas, foi rejeitada por entidades como a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) e agora está justamente com a equipe econômica para avaliação. A omissão e a falta de habilidade de negociação em torno da PEC do Fundeb são outros temas que exasperam a equipe econômica. A proposta vinda da Câmara aumenta drasticamente a contribuição da União ao principal meio de financiamento da educação básica.

Guedes entrou em campo para tentar afinar com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), um complemento menor para o fundo. Atualmente, o governo federal destina 10%. A equipe de Weintraub admite escalonar o percentual até 15%. No Congresso, o primeiro relatório propôs uma elevação de 40%.

Maia, no entanto, disse nesta semana que colocará na pauta em março a PEC dos deputados em uma versão negociada, que deve ficar entre 20% e 25%.

O presidente da Câmara não dará tramitação ao projeto enviado pelo governo, alegando urgência, já que o Fundeb vence no fim deste ano. A decisão pode resultar no primeiro desgaste concreto para Weintraub dentro do próprio governo, decorrente de sua péssima relação com o Legislativo.

A disputa em torno do Fundeb tem como pano de fundo uma crise protagonizada por Maia e Weintraub. Aliados de Bolsonaro avaliam que parte da irritação de Maia se dá pela demissão de um apadrinhado seu do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), da qual ele não foi previamente avisado.

Nesta semana, o presidente da Câmara, depois de bater duro na atual gestão do MEC, afirmou que não pode negociar com quem “representa a bandeira do ódio”.

Segundo interlocutores, Maia alertou Bolsonaro da dificuldade em se relacionar com o ministro. Na conversa, o presidente tentou acalmar os ânimos. E deixou claro para Maia que as questões sobre educação poderiam ser tratadas diretamente com ele. Apesar das críticas duras de Maia a Weintraub, Bolsonaro repete a aliados que “gosta” do ministro da Educação. Weintraub conseguiu criar tanta antipatia com a maioria do Congresso quanto conquistou seguidores no Twitter (quase meio milhão em dez meses). As redes sociais se tornaram, na visão de uma ala mais pragmática no entorno do presidente, uma “arma” do titular do MEC. Eles acreditam que ela pode ser usada para angariar apoio para a criação do Aliança pelo Brasil, novo partido de Bolsonaro. Weintraub já assinou ficha de inscrição da legenda que Bolsonaro tenta criar. Sua conexão com o público bolsonarista é sempre apontada como um motivo para a permanência, com direito à hashtag #ficaWeintraub.

Tribuna da Bahia

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