Eliana Calmon diz que Bolsonaro colocará o país nos trilhos

 

A ministra aposentada do Superior Tribunal de Justiça e ex-integrante do Conselho Nacional de Justiça, Eliana Calmon, avalia que a presença do juiz federal Sérgio Moro, que ainda é responsável pela operação Lava Jato na primeira instância, vai dar uma nova forma de combater a corrupção no país. “Está sendo inaugurado com esse projeto de Moro, que Bolsonaro está encampando, é uma forma nova de combate à corrupção no Brasil. É totalmente diferente, porque, inclusive, sempre se combateu a corrupção do ponto de vista jurídico. O que Moro está propondo? Está propondo a partir de agora um combate à corrupção político”, afirmou, em entrevista exclusiva à Tribuna. A magistrada aposentada minimizou as declarações do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) e acredita que não há risco para a democracia brasileira o governo do capitão reformado. Eliana Calmon defendeu o combate à corrupção no Poder Judiciário e falou das dificuldades que Bolsonaro vai enfrentar. Sobre a oposição, disse que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) está “liquidado”, que Fernando Haddad (PT) é “fraco” e a família Gomes (Ciro e Cid) é “truculenta”.

Tribuna – Qual a avaliação que a senhora faz do resultado da eleição presidencial deste ano?

Eliana Calmon – Eu faço avaliação não só da eleição presidencial, mas como da eleição como um todo. Estou entusiasmada pelo recado que a população deu nas urnas. Foi exatamente o resultado de que nós não queremos mais o que esta aí. Nós queremos o novo. Nós queremos mudar. Não aguentamos corrupção. Este, para mim, foi o recado. Se nós observarmos, houve do Oiapoque ao Chuí uma mudança muito grande. Velhas raposas, que estavam no Congresso Nacional há anos, perderam. Não perceberam que as mudanças estavam vindo e fizeram política do mesmo jeito que faziam há anos. Agora, não deu certo. A lista de políticos profissionais que foram retirados do Congresso Nacional foi muito grande.

Tribuna – A senhora foi criticada por apoiar o presidente eleito Jair Bolsonaro. A senhora atribui a vitória dele ao quê?

Eliana Calmon – Em primeiro lugar, ao movimento anti-PT. Foi isto, inclusive, que me fez migrar para Bolsonaro. Sou absolutamente sincera. Em segundo lugar, pelo que ele representava de novo. Isso só maturei depois de algum tempo, quando comecei a observar o projeto político dele. Eu fiz um estudo do que estava arquivado no TSE [Tribunal Superior Eleitoral]. Fiz uma comparação do que estava arquivado de projeto político do Haddad. E o dele [Bolsonaro] inspirava mudanças. Foi, exatamente, por isso que entendi que seria um governo diferente.

Tribuna – O atentado contra Bolsonaro consolidou a candidatura dele?

Eliana Calmon – Em princípio, foi. Eu achei interessante observar que ele não se vitimizou. A primeira fotografia que ele fez foi fazendo o gesto que ele fez em toda campanha precedente. Foi um gesto de arma. Ele disse o seguinte: “eu estou vivo e continuarei com meu projeto”. Ele poderia se vitimizar. Tirar foto combalido, mas isso não aconteceu. De forma que eu achei aquilo muito significativo. Agora, a partir de um certo momento, começou a ter uma saturação pelo fato de ele não ir para rua, não dar declarações e ficar encurralado dentro de casa. Isso terminou prejudicando e Fernando Haddad adquiriu uma certa vantagem, mas, sem dúvida nenhuma, a facada foi episódio muito importante.

Tribuna – O Bolsonaro pregou ódio contra minorias em boa parte da vida. A senhora acha que ele vai minimizar o discurso a partir de agora?

Eliana Calmon – Eu achava que ele era um candidato que não ia vingar. Essa era a minha avaliação e não prestei muita atenção a ele. No momento em que optei ficar contra o PT e o que me restou foi ele, eu comecei a analisar a partir inclusive dos comentários. Eu não vi nenhuma atitude de maior relevância que indicasse que ele era um fascista, nazista, truculento e que iria administrar sem a Constituição. O que eu vi foram episódios, inclusive, muito antigos, em momentos de irritação. Ele é uma pessoa, como se diz, de pavio curto. Quando ele está muito pressionado pela imprensa ou alguma coisa, ele começa a dizer diversas coisas que às vezes são chocantes, mas são palavras apenas. Quando vai analisar atitude família, atitude social e, até dentro do Exército, não encontra nenhum episódio que faça essa indicação [de ele ser fascista].

Tribuna – Bolsonaro incentivou ações de revide contra as minorias. Então, a mudança de discurso é importante para criar uma situação de unidade e de paz, não é?

Eliana Calmon – Exatamente. É o que ele está fazendo. Tem pedido calma aos colaboradores e às pessoas que o acompanharam. Depois que ele está em uma situação de conforto, ele começa a moderar o discurso e prega um discurso de unidade nacional.

Tribuna – Há algum risco de retrocessos na democracia?

Eliana Calmon – Não. Não acredito. Em princípio, o que nós podemos ter a ideia de que tenha retrocesso. É de uma volta de uma unidade disciplinada, porque o nosso país está totalmente indisciplinado. Não se respeita nada. Se diz que está respeitando as diferenças, mas não se respeita a propriedade. Não se respeita o direito alheio. A esquerda tem falado em resistência, resistência, resistência… No meu entender, quem perdeu diz o seguinte: “vamos ver o que vai acontecer”. Essa que é a posição. Vamos esperar e patrulhar para ver o que está certo e o que está errado, mas partir para resistir a qualquer política. Isso que me parece intolerância. O que eu acho é que, de início, poderemos ter uma ideia de que está havendo um retrocesso, mas não é. Precisa colocar o país nos trilhos. Essa questão das propriedades privadas não serem respeitadas é uma coisa muito séria. Então, ele já disse que não vai tolerar.

 

 

 

 

Tribuna da Bahia

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