“Consumidor vai pagar a conta da greve dos caminheiros”

 

Presidente da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (FIEB), Ricardo Alban fez questão de ressaltar, em entrevista exclusiva à Tribuna, que vai cair no colo dos consumidores brasileiros a paralisação de 11 dias dos caminhoneiros. “Quem paga a conta é o consumidor, qualquer que seja ela. Seja por decisões equivocadas, seja por problemas de custo, da carga tributária ou ineficiência administrativa do setor público ou privado, quem paga é o consumidor”, afirmou. Na avaliação dele, o protesto é resultado “insatisfação” que há em todos os setores, e o governo do presidente Michel Temer (MDB) não percebeu “o potencial do problema”. Ainda na entrevista, Alban falou sobre o impacto da Operação da Lava Jato na Bahia. Segundo ele, a perda de empregos foi o maior problema. “A que custo vai ser isso? Volto a dizer. Não é que as pessoas não sejam responsabilizadas, mas a empresa é um patrimônio da sociedade. Me parece que o cuidado com as empresas podia ter sido maior”, pontuou.

Tribuna – Qual o balanço que o senhor faz sobre a greve dos caminhoneiros para a economia baiana? Quem perdeu mais?

Ricardo Alban – Sempre é o consumidor, sempre. Quem paga a conta é o consumidor, qualquer que seja ela. Seja por decisões equivocadas, seja por problemas de custo, da carga tributária ou ineficiência administrativa do setor público ou privado, quem paga é o consumidor. O setor produtivo nada mais é do que quem faz a arrecadação e repassa custos. No setor produtivo privado, aquele que não repassar seus custos com a garantia da rentabilidade para continuar investindo, vai durar pouco. Então, quem paga é o consumidor. A greve dos caminhoneiros terá um custo que ainda não se pode mensurar. Nós temos estimativas porque não temos os números consolidados e nunca o teremos com certeza porque as empresas não passam essas informações. Mas, o faturamento de junho foi comprometido em torno de R$ 700 [milhões] a R$ 1 bilhão só na Bahia, e [esse dado] nem é do setor industrial. Esse é um prejuízo que não teremos como recuperar num médio ou curto prazo diante das características que nós vivemos. E por que então, até hoje, existem movimentos de dificuldade? De ontem para hoje nós estávamos negociando, juntamente com o apoio da Secretaria de Segurança Pública (SSP – BA), porque não estávamos conseguindo ter acesso a fábricas, que ficaram paradas em Itabuna. Em vários lugares aqui na Bahia, ainda temos pontos de estrangulamento que não se consegue circular. Como são problemas de atacado, conseguimos fazer uma solução pontual, mas no genérico não.

Tribuna – Faltou “pulso” do governo federal para agir e inibir o rumo que o movimento tomou?

Ricardo Alban – Eu acho que faltou perceber o potencial do problema que ele poderia vir a ser. Hoje, o que existe é um represamento de insatisfações em todos os ambientes e setores. A insatisfação ela é represada em qualquer forma que seja. Social, econômica ou política, há um represamento grande de insatisfações. Tanto é que a primeira posição dessa greve dos caminhoneiros foi a empatia com a sociedade. No momento em que ela começou a se transformar em um problema para a sociedade, quer seja em abastecimento ou a falta de uma liderança, ele começou a transformar essa empatia em um incômodo. Mas, é fácil você ser engenheiro de obras prontas. É fácil criticar depois que o problema chegou aonde chegou. Houve algumas proatividades. Elas poderiam ser previstas e redimensionadas antes? Provavelmente sim, mas era uma situação cômoda ser engenheiro de obras prontas. 

Tribuna – Muita gente diz que houve participação de empresas em núcleos dessa greve. Como o senhor avalia isso?

Ricardo Alban – Eu acho que não. Como eu acabei de falar, temos um represamento de insatisfações políticas, sociais, econômicas, empresariais, laborais… Então quase tudo pode ser motivo para um estopim para que isso aflore, sem necessariamente ter um protagonismo de ninguém. Não é difícil você começar a encontrar respostas daquela que convém. Por que existem resquícios de focos de greve já que as pseudolideranças teriam aceitado as condições? É porque, certamente, não existe essa identidade. Hoje, um dos problemas que todos nós passamos no país é exatamente isso, a falta de liderança. 

Tribuna – A gente consegue dimensionar um impacto sobre esse movimento, a médio e longo prazo na economia, inclusive na própria Bahia? 

Ricardo Alban – Hipoteticamente, numa análise de sensibilidade, nós imaginarmos que teríamos entre R$ 700 [milhões] e R$ 1 bilhão e isso jamais se recupera. Então, podemos estar fazendo uma alusão a essa conta, mas, certamente, a Secretaria da Fazenda poderá fazer mais. No comércio e serviços existe o Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISS), tudo ficou represado. Nós temos uma economia que não está demandando e isso não é reposto na velocidade, é postergado sempre. 

Tribuna – Como o senhor viu as alternativas que foram colocadas para solucionar a questão da greve? Onde está o gargalo? O senhor acredita que o remédio utilizado foi o correto para demanda que temos hoje?

Ricardo Alban – Eu acho que subsídio é uma palavra muito simplista quando não se quer criticar ou não se quer “pejoratizar” alguma coisa. Um ponto que eu acho que está totalmente fora da curva nessa negociação se chama frete mínimo. Ele é totalmente anti o que chamamos de economia de mercado. Se a própria Petrobras está praticando economia de mercado, não pode se falar em frete mínimo. O problema do frete também é oriundo da própria situação do mercado. Nós tivemos há cerca de quatro anos, um forte estímulo da renovação de caminhões, com financiamentos a juros bastante atrativos, cerca de 2%, 3% ou 4%. Foi feita uma renovação da frota há cerca de quatro anos numa economia que se mostrava crescente. Ao longo do processo de renovação da frota, a economia do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro caiu, acumulando nos últimos dois anos cerca de 15%. Por que isso acontece? Se passou a ter uma superoferta de transportes. É normal. Você tem um desequilíbrio no mercado. É por isso que os fretes, talvez, estejam hoje abaixo do que poderia ser desejado para quem, obviamente, transporta. É uma questão de oferta e procura. Quando fazemos o frete mínimo, estamos falando do engessamento de uma lei de mercado e não tem como concordar com isso. Com relação à redução de impostos e a substituição, talvez, por uma negociação com oneração da folha, da reoneração da folha, é mais um equívoco. Temos que transformar o custo Brasil, e como o custo Brasil é algo tão genérico, tão amplo, é difícil começarmos a enumerar item por item. Mas temos que começar a transformar o estado brasileiro no tamanho que a nossa economia comporta. Nós não podemos resolver todos os problemas aumentando. Se já tem uma curva, que é bastante conhecida e que me foge o nome agora, dos economistas, que se mostra que à medida que você aumenta imposto, você não aumenta a arrecadação. É conceitualmente aceito que 33% é o teto que deveria representar a carga tributária no país para que esse efeito não fosse reverso. Nós estamos aí com 37%, são uma referência de números. Será que é 37% mesmo? É essa a estatística que mostra que é 37% a nossa carga tributária. Teoricamente estamos acima dele [do teto].  Estamos com carga tributária equivalente a dos países desenvolvidos, que têm um retorno social grande, que não é o caso do Brasil. 

 

 

 

 

Tribuna da Bahia

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