‘Candidatura de Denice desarma o discurso identitário que tem dentro do PT’

Ao demonstrar preocupação com o atual cenário político brasileiro, o cientista político e professor da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Paulo Fábio Dantas Neto, afirmou que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) tem tentado “fomentar a anarquia no país”.

“Muita gente acha que ele está se cercando de militares para tentar um golpe diante de uma alguma reação contra ele. A minha percepção é de que ele está agindo em relação às Forças Armadas com a mesma lógica que ele age com o Congresso, o STF. Ele está trabalhando contra para quebrar a espinha das Forças Armadas. Ele quer fazer com as Forças Armadas o que já está fazendo com as Polícias Militares, que é fomentar a insubordinação, a instabilidade. Para fazer com o Congresso e o STF, o caminho é intrigar com a opinião pública. Para enfraquecer e dividir as Forças Armadas, a estratégia é fomentar a insubordinação. É isso que ele faz quando enche o governo de generais, e começa a descartar e desmoralizar perante sua tropa”, analisou, em entrevista à Tribuna.

Para o especialista, não se pode descartar a hipótese de um impeachment de Bolsonaro. “Ainda que se considere que o impeachment não é viável agora, ele nunca poderá ser descartável como uma atitude antidemocrática, porque isso desarma as instituições para necessidades que poderão ter de tirar de campo um jogador que está descumprindo as regras”, pontuou. Ainda na entrevista, o professor Paulo Fábio Dantas Neto analisa o cenário eleitoral em Salvador e na Bahia.

Tribuna – Como o senhor avalia o atual cenário político brasileiro com o governo do presidente Jair Bolsonaro?

Paulo Fábio – A palavra, talvez, mais adequada é: apreensão. Estou muito apreensivo, porque acho que foi longe demais a estratégia destrutiva que os movimentos do presidente da República deixam claros há um ano. Entendo que é preciso agir com cuidado, moderação e apostando que as instituições poderão desarmar as bombas que são armadas a cada semana. Entendo que o Congresso, o STF, a sociedade civil queiram evitar um processo de radicalização, que poderia levar a um impeachment, porque crimes de responsabilidade já foram cometidos à vontade para justificar. Mas me preocupa uma declaração que ouvi do ex-presidente Lula em que desqualifica a hipótese do impeachment dizendo que nós temos que esperar os quatro anos, como se a democracia só pudesse ser exercida esperando os quatro anos para a próxima eleição. Ainda que se considere que o impeachment não é viável agora, ele nunca poderá ser descartável como uma atitude antidemocrática, porque isso desarma as instituições para necessidades que poderão ter de tirar um campo um jogador que está descumprindo as regras.

Tribuna – Como o senhor observa a grande presença de militares no governo Bolsonaro?

Paulo Fábio – Muita gente acha que ele está se cercando de militares para tentar um golpe, diante de uma alguma reação contra ele. A minha percepção é de que ele está agindo em relação às Forças Armadas com a mesma lógica que ele age com o Congresso, o STF. Ele está trabalhando contra para quebrar a espinha das Forças Armadas. Ele quer fazer com as Forças Armadas o que já está fazendo com as Polícias Militares, que é fomentar a insubordinação, a instabilidade. Para fazer com o Congresso e o STF, o caminho é intrigar com a opinião pública. Para enfraquecer e dividir as Forças Armadas, a estratégia é fomentar a insubordinação. É isso que ele faz quando enche o governo de generais, e começa a descartar e desmoralizar perante sua tropa. Ele está pondo em prática um processo de venezuelização das Forças Armadas. Estamos defendendo a democracia olhando a bola, marcando a bola, mas não estamos prestando a atenção no atacante. Uma zaga marcar a bola e não marcar o atacante de perto é algo muito perigoso.

Tribuna – O senhor acha que há risco de golpe no país?

Paulo Fábio – Não. Estou dizendo o contrário. Ele está trabalhando para impedir, inclusive, que as Forças Armadas tenham qualquer chance (de adotar alguma medida) em atenção ao pedido do Congresso, do STF. O que ele está querendo é fomentar a anarquia no país. Ele acha que pode chegar a uma situação em que as instituições estejam todas desmoralizadas, as Forças Armadas de mãos atadas, para que ele se torne a única alternativa de um governo a partir de uma anarquia. Isso é uma lógica miliciana. Eu acho que o plano A é esse.

Tribuna – Como o senhor avalia a postura da oposição?

Paulo Fábio – A oposição está se comportando de maneira moderada. Eu acho positivo, mas o que não pode é a moderação ser confundida com resignação, conivência. É muito preocupante a situação que o país está vivendo. O risco que corremos é levar isso em banho-maria até a eleição. E, na eleição, no melhor dos cenários, ele não conseguir a reeleição, mas quem ficar no lugar dele não conseguir governar porque as instituições estarão esgarçadas.

Tribuna – A sociedade está assistindo de maneira passiva?

Paulo Fábio – Acho que não. Ninguém sabe o que está acontecendo na cabeça profunda dos eleitores brasileiros, mas a defesa da democracia independe disto. Mesmo que o povo desejasse que a democracia acabasse, quem está à frente das instituições não pode deixar que isso aconteça. A Constituição é algo que não pode ser transgredida. Nem em nome do povo.

Tribuna – Como o senhor observa a participação das lideranças baianas nesta conjuntura nacional?

Paulo Fábio – O prefeito de Salvador é presidente nacional de um partido que está no governo. Ele é líder de um grupo político que tem ligações com o governo, mas ele nunca deixou, em nenhuma oportunidade, de marcar claramente uma posição política contra esse tipo de atuação. Acho que ele tem se conduzido, na minha opinião, dentro do limite da responsabilidade. Tentando agir com moderação. O governador Rui Costa também tem se conduzido dentro dos trâmites que cabem a uma autoridade.

Tribuna – O que o senhor achou do rompimento do presidente Bolsonaro com o PSL para depois tentar criar o Aliança Pelo Brasil?

Paulo Fábio – O jogo populista é esse. Partido e instituições não têm importância para eles. O PSL teve um resultado eleitoral muito grande e se tornou um partido com muitos deputados e senadores. Isso faz com que comece a surgir, dentro do PSL, aspirações, projetos. E a lógica de Bolsonaro é a lógica de familismo. Ele quer um esquema em que ele dirija com aquela lógica familista e miliciana. Nem todo mundo no PSL estava nessa história. Então, ele vai buscar uma organização que seja mais parecida com o movimento bolsonarista. O PSL ficou maior que o bolsonarismo. E, por isso, o PSL deixou de ser um instrumento para ele.

Tribuna – Trazendo a discussão para a Bahia: neste ano, haverá a sucessão do prefeito ACM Neto. O PT deve lançar a major Denice Santiago, que é comandante da Ronda Maria da Penha, como candidata à prefeitura de Salvador. O que senhor pensa?

Paulo Fábio – O governador mostrou pouco entusiasmo no primeiro momento por uma articulação em torno do nome de Bellintani. Ele não melou nada, mas também não deu o incentivo que seria necessário. Então, Bellintani recuou. Com a saída de Lula da cadeia, que disse que o PT tem que ter candidato em todos os lugares, a direção do partido começou a trabalhar para um processo de escolha do candidato. Apareceram vários candidatos e no fim ficaram quatro. E tudo caminhava para a direção do partido escolher o candidato esperando o apoio do governador. Qual a foi a solução proposta por Rui Costa? A candidatura da major Denice. Uma solução totalmente heterodoxa. Fora dos padrões do partido. Ainda traz para o centro da disputa essa questão da segurança pública, que é delicadíssima. Os acontecimentos posteriores, como o (motim) do Ceará e a morte do miliciano (Adriano da Nóbrega), devem fazer com o que se reflita se é politicamente interessante colocar alguém que, dentro da polícia, tem se colocado como coibidora de excessos policiais. A imagem dela só pode ser bancada se houver uma decisão política de não permitir na polícia baiana que se prolifere a atitude de truculência porque senão a candidatura vai ficar pendurada na brocha.

Tribuna – O que a candidatura da major Denice Santiago significa?

Paulo Fábio – Significa que o governador disse ao partido o seguinte: “se querem que o governador entre na campanha de cabeça, tem que ser ela. Se não quiserem, vocês fazem a campanha e eu não vou ser responsável pela derrota”. Essa é a leitura que faço do movimento de Rui. E ele fez um movimento compreensível, que tem racionalidade. Essa candidatura desarma o discurso identitário que tem dentro do PT. Denice não tem discurso identitário.

Tribuna – Isso amplia o leque de eleitores?

Paulo Fábio – Ela pode dividir alguma coisa do eleitorado de (ACM) Neto. Eu creio que Rui Costa fez um movimento racional do ponto de vista dele. Qualquer outro dos quatro candidatos (Robinson Almeida, Vilma Reis, Fabya Reis e Juca Ferreira) que ele apontasse seria dar apoio a um movimento externo ao governo. Ele não teria um candidato dele. Ele queria colocar o dedo dele.

Tribuna – Como o senhor observa a articulação de ACM Neto para manter a prefeitura de Salvador?

Paulo Fábio – Por que Bruno Reis é o candidato de ACM Neto? Ele tinha quadros que, do ponto de vista político e administrativo, eram mais promissores do que Bruno Reis. Leo Prates era um e Bellintani era outro. Na construção, ele privilegiou Bruno Reis, porque Leo Prates, do ponto de vista político, e Bellintani, do ponto de vista administrativo, demonstravam ter autonomia de voo maior do que Bruno Reis. E Neto precisa de alguém com mais fidelidade ao projeto. Bruno pode surpreender e virar Rui Costa? Pode. Mas, de todos os candidatos, ele é hoje que Neto tem mais controle. Foi a lógica de Antônio Carlos quando escolheu Clériston e não Mário Kertész. Foi a lógica de Wagner quando escolheu Rui Costa. Foi a lógica de Seabra quando escolheu Antônio Muniz. Essa é a lógica de política.

Tribuna – Como o senhor observa a articulação de Jaques Wagner para voltar a ser governador da Bahia?

Paulo Fábio – Eu acho que ele quer voltar, mas não depende dele. Wagner é um político realista. Sabe que não depende da vontade dele. Por isso, ele não quer brigar com Rui. O que ele quer é coordenar a sucessão em 2022, e Rui pode não estar satisfeito com isso. Rui é um homem relativamente de jovem. Por que ele vai encerrar a carreira dele? Rui Costa depois de um governo bem avaliado pode aspirar ser senador. Para ele ser senador, o projeto de Wagner de voltar ao governo desaparece.

Tribuna – O senhor tem dito que o grupo carlista não existe mais, mas há uma ideologia carlista?

Paulo Fábio – O grupo carlista se manteve na Bahia até a eleição de 2010. O governo do Estado trabalhou no sentido de cooptar muitas prefeituras para o lado do governo através de Geddel. Em 2004, elegeu 20 prefeitos em toda a Bahia. Quando começou a eleição de 2018, o MDB já tinha 100. De onde vieram esses 80? Ele pegou 80 prefeitos que estavam nos partidos carlistas. Como Geddel saiu candidato a governador (em 2010), Wagner se encarregou de tomar boa parte dos prefeitos e entregar para Otto Alencar. Então, a estrutura partidária do carlismo foi emagrecida por uma dupla pressão de um lado o governador e, do outro lado, o MDB. A partir de então, começa uma nova uma história. Wagner estava montando um esquema tão poderoso quanto o carlismo. A eleição de 2014 só não foi passeio de Rui Costa porque a situação nacional como a degringolar, com a manifestação em 2013 e a eleição polarizada em 2014. O esquema político do PT era para se reproduzir durante muitos anos, mas não aconteceu isso porque a situação nacional mudou. Rui Costa entrou no governo na hora da maré vazante assim como ACM Neto começou seu trabalho na maré vazante do carlismo. Temos duas lideranças do estado que foram temperadas na adversidade. Então, Wagner foi artífice de um esquema político que, na minha opinião, desmontou o carlismo na Bahia. O carlismo deixou de existir como grupo político desde 2010. O que ACM Neto passou a fundar depois de sua eleição é outra coisa.

Tribuna – Mas a oposição tenta vincular ACM Neto aos aspectos negativos do carlismo.

Paulo Fábio – Mas para cada vez menos eleitores isso importa na Bahia. ACM saiu do poder nacional em 2002. Quem tem 25 anos de idade hoje tinha sete anos quando ACM deixou o poder nacional. E tinha 11 anos de idade quando ACM perdeu o poder estadual. O sucessor de ACM não fez da memória do avô o centro de sua política. Os adversários tentam o tempo todo colar essa marca nele. Mas Neto passou a construir uma imagem diferente do avô, sem nunca confrontar.

Tribuna – ACM Neto é um antipetista hoje?

Paulo Fábio – O adversário retórico de ACM Neto é o PT, mas o adversário que ele vai ter também não é Rui. Tanto que parou o confronto de Rui e Neto. Se depender de Neto, não tem. Qual é a questão de Neto? É brigar com menos gente e amealhar o máximo possível de apoios. Quando Wagner começou a articular a candidatura de Bellintani, qual foi a reação de Neto? Elogiar Bellintani. Então, quem está fazendo política na Bahia na base de carlismo e anticarlismo quer cuidar apenas do eleitorado antigo seu. O eleitorado da Bahia está dando as costas para isso.

Tribuna – O carlismo existe enquanto uma ideologia?

Paulo Fábio – Eu acho que não. O modo de fazer política do carlismo é um modo entranhado na tradição da política brasileira. Está dentro do grupo ACM Neto e está dentro do grupo de Rui Costa. Rui Costa se parece mais com o ACM dos anos 90 do que o neto de ACM. Hoje, fazendo política. Parece que Rui Costa é ACM e ACM Neto é Wagner.

Tribuna – Há hoje uma polarização entre petistas e antipetistas?

Paulo Fábio – Eu não creio nisso. Se Neto conseguir fazer o seu sucessor e influenciar em outras cidades importantes da Bahia, ele pode fazer um movimento para ganhar o governo. E as forças que estão hoje compostas vão ter um momento de definição. O PT para continuar comandando as forças vai ter que resolver as coisas entre Rui Costa e Wagner. O problema central para o PT se manter é isso. Ou Wagner vai desistir de voltar ao governo ou Rui vai desistir de ser senador. Não tem lugar para as coisas. Não cabem dois petistas na mesma chapa. Ou o PT resolve isso ou vai ter sair separado de outros aliados que hoje estão com eles.

Tribuna – O governo de Rui pode ser considerado um governo de esquerda?

Paulo Fábio – É um governo de esquerda porque ele é governador de um partido de esquerda. Claro que é. Essa conversa do PSOL de que o PT não é um partido de esquerda é conversa para ganhar eleitor do PT. Mas é claro que o PT é o partido mais expressivo de esquerda. Ele tem um estilo que lembra o de Antônio Carlos, mas ele não será o primeiro político de esquerda a ter isso. Esse estilo vertical de mando não exista só na direita, embora na direita seja o ambiente que abrigue mais esse tipo de liderança vertical. ACM Neto deixa de ser direita por que faz um estilo de política como de Wagner? Não. Ele continua sendo direita. O que a maturidade da análise precisa compreender é que existem raposas e leões, para usar a expressão de Maquiavel, na esquerda e na direita.

Tribuna da Bahia

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