Advogados suspeitos de fraudes judiciais de R$ 100 milhões concentram 53,3 mil ações em Ribeirão Preto

O Ministério Público aponta que, apenas na Justiça de Ribeirão Preto (SP), quatro advogados investigados na Operação Têmis movem juntos 53,3 mil processos. A maioria das ações exige supostas diferenças de perdas decorrentes dos planos Collor, Verão e Bresser, que são alvos da investigação, de acordo com a promotoria.

O número não leva em consideração processos ajuizados em outras comarcas. Para as autoridades, há evidências de que o grupo chegou a atuar fora do Estado, em cidades como Belo Horizonte (MG), e mantinha as fraudes porque as correspondências referentes aos trâmites judiciais sempre eram remetidas a endereços de empresas e associações envolvidas no esquema.

“São mais de 53 mil ações que foram propostas por esses escritório de advocacia, o que nos indica aproximadamente quase cinco varas cíveis de Ribeirão trabalhando exclusivamente para atender essas ações propostas por esse escritório”, afirma o promotor de Justiça Aroldo Costa Filho.

Cinco suspeitos foram presos e outros dois estão foragidos por indícios de fraudes judiciais que causaram um prejuízo de R$ 100 milhões a instituições bancárias. O MP e a Polícia Civil descobriram que o grupo se passava por representante de beneficiários de correntistas, usando procurações de pessoas que tinham os mesmos nomes das vítimas. Os documentos, segundo as investigações, eram obtidos por intermediários que prometiam “limpar o nome” de inadimplentes.

Documentos e equipamentos apreendidos durante a Operação Têmis, em Ribeirão Preto (SP) (Foto: Reprodução/EPTV)

Documentos e equipamentos apreendidos durante a Operação Têmis, em Ribeirão Preto (SP) 

A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que acompanha o caso, confirmou que os advogados serão alvos de um procedimento ético-administrativo que pode resultar na cassação dos profissionais.

Em nota, a Frente Brasileira pelos Poupadores (Febrapo) comunicou que um recente acordo com a Federação Brasileira de Bancos (Febraban), mediado pela Advocacia Geral da União, contempla os poupadores dos planos que entraram com ações judiciais nos prazos e que não é mais possível ingressar com novas ações. “Toda oferta de serviço para ingressar com novas ações é fraudulenta”, alerta.

 

O advogado Renato Vidal, preso na Operação Têmis em Ribeirão Preto (Foto: Reprodução/EPTV)

O advogado Renato Vidal, preso na Operação Têmis em Ribeirão Preto 

Durante a operação desta quinta-feira, foram cumpridos mandados de busca e apreensão e cinco prisões:

  • Renato Rosin Vidal, advogado do escritório “Lodoli, Caropreso, Bazo & Vidal Sociedade”
  • Klaus Philipp Lodoli, advogado do escritório “Lodoli, Caropreso, Bazo & Vidal Sociedade”
  • Ângelo Luiz Feijó Bazo, advogado do escritório “Lodoli, Caropreso, Bazo & Vidal Sociedade”
  • Ramzy Khuri da Silveira, proprietário da associação “Pode Mais, Limpe Seu Nome”
  • Luiz Felipe Naves Lima, funcionário da associação “Eu vou trabalhar”

Os suspeitos foram encaminhados ao Centro de Detenção Provisória (CDP) de Ribeirão. Eles negam as denúncias. Dois mandados de prisão não foram cumpridos. São considerados foragidos:

  • Gustavo Caropreso Soares de Oliveira, advogado do escritório “Lodoli, Caropreso, Bazo & Vidal Sociedade”
  • Ruy Rodrigues Neto, proprietário da associação “Eu vou Trabalhar”

O advogado que defende Vidal, Lodoli, Bazo e Silveira disse que somente vai se manifestar depois de analisar os 27 processos abertos contra seus clientes.

O advogado Klaus Philipp Lodoli, preso na Operação Têmis em Ribeirão Preto (Foto: Reprodução/EPTV)

O advogado Klaus Philipp Lodoli, preso na Operação Têmis em Ribeirão Preto 

53,3 mil processos

Somente na Justiça de Ribeirão Preto, quatro advogados investigados na operação acumulam 53.390 processos cíveis, em sua maioria ligados à reclamação das perdas inflacionárias dos planos econômicos dos anos 1980 e 1990.

Segundo o Ministério Público, Rosin Vidal tem 25.075 processos, enquanto Gustavo Caropreso Soares de Oliveira tem outros 15.983. Klaus Philipp Lodoli e Angelo Luiz Feijó Bazo acumulam respectivamente mais 10.401 e 1.931 ações.

O advogado Ângelo Luiz Feijó, preso na Operação Têmis em Ribeirão Preto (Foto: Reprodução/EPTV)

O advogado Ângelo Luiz Feijó, preso na Operação Têmis em Ribeirão Preto.

As investigações apontam ainda que os sócios do escritório de advocacia têm outros 30 mil recursos tramitando no Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), dos quais 18 mil estão no nome de Vidal e estão relacionados a contratos bancários, revisão contratual e exibição de documentos.

A promotoria também levantou evidências de que o escritório de advocacia ligado às fraudes tinha atuação fora da região de Ribeirão Preto, com unidades em Itápolis (SP) e Belo Horizonte (MG).

A continuidade das fraudes era possível, de acordo com o MP, porque as correspondências referentes às ações nunca chegavam às pessoas que tinham tido os dados utilizados sem consentimento nos processos.

Isso porque, segundo a promotoria, os investigados induziam aqueles que os procuravam para “limpar o nome” a assinar uma carta comunicando falsamente sobre uma mudança de endereço e autorizando os envios aos escritórios das empresas e associações ligadas ao grupo.

“A princípio essas pessoas acreditavam que estavam assinando uma carta que seria encaminhada para a empresa para a qual elas deviam e seria feita uma negociação em nome delas. Elas não sabiam que iriam ser propostas várias ações em nome delas, tanto que elas foram chamadas pelo poder judiciário, compareceram aos cartórios e falaram: eu não sabia que havia ação em meu nome”, afirma o promotor Aroldo Costa Filho.

A promotoria ainda investiga o envolvimento de um funcionário do Banco do Brasil no envio de extratos aos advogados sem qualquer tipo de procuração ou autorização dos correntistas.

O que dizem os investigados

  • Ângelo Luiz Feijó: negou as acusações, mas não quis comentar o caso. “Por hora, não. Por favor, agora não pretendo dar nenhuma entrevista. Por hora, nada. Nem tenho conhecimento do que está ocorrendo”, afirmou.
  • Renato Vidal: negou participação nas supostas fraudes judiciais. “O que eu tenho a dizer é que o Ministério Público está fazendo o papel dele, de investigar as irregularidades que eles suspeitam. O Ministério Público vai poder verificar que não houve nada. A associação é parceira do escritório, eles fazem um trabalho junto à população de baixa renda, e, quando não resolvem a situação através da associação, eles nos procuram para ajudar a solucionar o problema”, disse.
  • Klaus Philipp Lodoli: afirmou que as acusações são mentirosas. “Isso é mentira e vai ser provado no processo. Inclusive, foi cedido o servidor de maneira integral, inclusive com senha. Toda a documentação do escritório foi cedida para eles e vai ser feita a verificação. O que existe por parte do poder judiciário é uma rechaça com relação à atividade do escritório propriamente dita, e nós não vamos deixar de atender aos interesses dos nossos clientes”, afirmou.
  • Ramzy Khuri da Silveira: não se manifestou sobre as acusações.

Operação Têmis

Ao todo, sete mandados de prisão preventiva e 20 de busca e apreensão estão sendo cumpridos. A operação é realizada pelo Centro de Inteligência da Delegacia Seccional de Ribeirão, em conjunto com o Ministério Público e o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco).

Segundo o MP, os suspeitos conseguiam ilegalmente o cadastro de clientes de bancos e entravam com ações judiciais sem que as pessoas soubessem que os nomes delas eram usados. A suspeita de que funcionários das instituições financeiras estejam envolvidos na fraude não está descartada.

Com a relação de correntistas em mãos, assim como os números das contas bancárias e os respectivos valores depositados na década de 1990, os investigados saíam à procura de homônimos residentes em Ribeirão e região para usá-los nas fraudes.

As vítimas assinavam procurações em meio a outros documentos, sem nenhum conhecimento. Inadimplente, a maioria dessas pessoas era abordada pelos advogados ou por intermediários deles, com a promessa de conseguirem quitar as dívidas.

O MP informou que os suspeitos também usavam uma associação para atrair inadimplentes, prometendo “limpar os nomes sujos”. A empresa, localizada na Avenida Costábile Romano, ficava a 150 metros de dois escritórios de advocacia que também são alvos da Operação Têmis.

G1

 

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